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Ideologização da vida I: a ordem por detrás do caos

O populismo que pode nos assaltar a partir de 2019 – ou desde outubro deste ano – não é necessariamente a causa de todos os males. Por outro lado, para além de uma simples consequência, ele pode ser fator que desencadeia ainda mais espasmos em um sistema que já convulsiona. O que, então, nos empurra tão vigorosamente para essa situação extrema, se sabemos que caminhamos em direção ao desastre?

O processo de naturalização da concentração de poder no país conta com fatores muito sutis e que, por vezes, escapam à compreensão do senso comum. Nossa percepção fica embotada quando elementos constituintes do padrão democrático operam apenas segundo suas formas básicas, sem oferecer as garantias mínimas de representação real. O que deve ser, de fato, apenas parece ser; como a sombra platônica que toma o lugar do objeto que a produz.

Aquilo que garante a longevidade das nossas formalidades paralisantes, essa “casca de noz”, é a adesão atávica a ideários e conjuntos conceituais, que reforçam a necessidade presente de algo ainda não experimentado, meramente ideal. Modelos de como as coisas deveriam ser são aplicados sem considerar a complexidade da vida social. O que pretendia combater injustiças e promover felicidade, além de fracassar, nos encarcera em visões fechadas e estéreis.

Se ideologias, no entanto, nos apontam caminhos infalíveis para mundos sonhados, que valor daríamos à realidade? Por que viver “neste” mundo? O problema da deturpação do “real” – que, agora, deve se adaptar ao modelo – é que o processo de apreensão do mundo, que constitui a mola mestra do conhecimento humano, passa a prescindir da justificação objetiva.

Como resultado, emerge a questão de como pensar o mundo inteiro a partir de parâmetros fixos, sem cair na relativização geral ou no totalitarismo das ideias. O filósofo esloveno Slavoj Zizek nos empresta uma visão bastante peculiar desse fenômeno: capitalismo, comunismo, liberalismo, socialismo, nacionalismo, coletivismo, anarquismo, dentre outros modelos herméticos, têm em comum a premissa subjacente, subliminarmente transmitida, de que são receituários perfeitos e devem ser dogmaticamente defendidos.

O ideal a ser perseguido passa a ser não mais o de, por exemplo, uma sociedade justa, livre e próspera, mas a da divulgação, difusão e manutenção da “muleta” ideológica. A justificativa é apenas formal, uma tentativa ex-ante de afastar a inexorável dissonância cognitiva.

Espera-se que cada um se apaixone por seu “time” e o defenda até a morte, mesmo que ele jogue muito mal e nunca dê qualquer alegria real à torcida, a não ser a de “torcer”. Na verdade, a metáfora futebolística é injusta. Nesse campo, nenhuma equipe produz conforme o investimento que os torcedores fazem no clube. Alguém sempre sai ganhando mais, desproporcionalmente.

Ainda assim, nada pode ser mais palatável que uma boa ideologia. Vivemos segundo várias delas, que conformam nossos olhares, gostos e crenças. Da mesma forma, a anti-ideologia desse artigo está repleta de conceitos pré-concebidos. Todos nós estamos de certa forma aprisionados. Alguns percebem o fenômeno, outros não.

O mal não é qualquer sistema ordenado de ideias, mas o uso que dele fazem. O preenchimento de um certo vazio existencial, que ideologias realizam, provoca grande conforto; principalmente pela identificação de propósito, de causas pelas quais viver. Não é necessária muita imaginação para perceber que algo tão valioso certamente seria explorado por quem quisesse tirar algum proveito, digamos, mais pragmático.

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O estratagema que nossos “líderes” utilizam para revestir de conteúdo ideológico – e dividir a tarefa com o maior número de “adeptos” – o assalto que praticam à nossa democracia, fica para a semana que vem. Os resultados dessa prática, também.

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