A guerra comercial EUA x China e os interesses no petróleo brasileiro

Rodrigo Leão *

Nos primeiros dias do mês de agosto, a desvalorização da moeda chinesa abalou o noticiário internacional. Foi uma resposta do governo chinês à elevação das tarifas impostas pelo governo americano aos produtos chineses. Embora a desvalorização do yuan não tenha sido bastante modesta, os analistas entenderam que, em razão desta medida, o governo chinês deve elevar o tom na guerra comercial com os Estados Unidos.

As consequências dos próximos capítulos dessa guerra ainda são imprevisíveis, todavia devem afetar significativamente os principais mercados globais, como o de petróleo e gás. De acordo com o analista Dominick Chirichella, diretor de risco e negociação do Instituto de Gestão Energética de Nova Iorque, “para o curto prazo, o mercado concentrará suas atenções na guerra comercial. As manchetes sobre o comércio serão o principal vetor que direcionará os preços do mercado [de petróleo]. (...) Pode ser que o petróleo fique ainda mais barato: O Bank of America especulou, na segunda-feira, que o petróleo poderia despencar para US$ 30 por barril se a China começasse a adquirir petróleo iraniano para retaliar ainda mais Trump e suas sanções contra Teerã”.

Como se observa, o acirramento da guerra comercial entre China e Estados Unidos pode influenciar fortemente os rumos do preço do petróleo, tornando-o cada vez mais imprevisível ao longo do tempo, bem como impactar na política externa chinesa para o Oriente Médio. Uma potencial aproximação do Irã pode significar um afastamento dos chineses, a partir da influência americana, da Arábia Saudita.

Independente dessas previsões, é inevitável que ocorra um aumento das tensões das relações exteriores entre a China, os Estados Unidos e os países do Oriente Médio, assim como uma maior incerteza sobre o futuro dos preços do petróleo. Nesse sentido, a política chinesa de diversificação dos seus fornecedores de petróleo e derivados e os investimentos de suas empresas para comprar reservas de petróleo devem ganhar ainda mais força daqui por diante.

Neste contexto, enquanto não fica claro se o governo Bolsonaro embarcará nessa guerra comercial se alinhando aos Estados Unidos, a China deve acelerar ainda mais a sua entrada no setor petrolífero brasileiro. Dada a força dessa investida, o país asiático tem capacidade de acelerar a compra de ativos no Brasil. Isso, porque, embora as empresas chinesas do ramo petroquímico, petrolífero e logístico tenham realizado, de forma aparentemente dispersa, diversos investimentos no mercado de petróleo e infraestrutura em nosso país, estes obedeceram a uma estratégia articulada de inserção em terras brasileiras.

Ou seja, diferentes players chineses entraram em vários segmentos da cadeia produtiva de petróleo, criando uma espécie de “verticalização da indústria chinesa a partir do petróleo brasileiro”. Além dos investimentos na área de exploração e produção, a partir da compra de vários campos de petróleo do pré-sal por diferentes empresas estatais, outros players realizaram movimentos em outras áreas, desde o refino passando pela distribuição e chegando até a logística e os portos.

No refino, a estatal CNPC adquiriu, em meados de 2018, uma fatia de 20% da refinaria do Comperj que será operada, após a conclusão das suas obras, por uma joint-venture entre a empresa chinesa e a Petrobras. Além disso, a empresa chinesa do ramo petroquímico, Qingdao Xinyutian Chemical, manifestou o interesse em adquirir a Refinaria Landulpho Alves-Mataripe (Rlam), localizada na região metropolitana de Salvador ainda no governo Temer, quando a Petrobras divulgou a sua primeira proposta de desinvestimento no refino em abril de 2018.

As ações das empresas chinesas não se limitaram à busca pelos ativos da petrolífera brasileira, mas também à implementação de investimentos novos no refino, principalmente no Nordeste. A Sinopec, por exemplo, iniciou as conversas no ano passado para a retomada do projeto da refinaria Premium I no Maranhão – que antes estava no portfolio de investimentos da Petrobras – também com capacidade de 300 mil barris/dia.

No segmento de distribuição, em março de 2018, a PetroChina (subsidiária da CNPC) comprou 30% da TT Work, empresa brasileira com sede em Recife dona da distribuidora Petronac, além dos terminais Tecomb e da logística Wega. Segundo informações do jornal Valor Econômico à época da compra, a PetroChina entraria no rol das seis maiores distribuidoras de gasolina e diesel do país adquirindo mais de dois mil postos de combustíveis – a sua maioria no Nordeste.

As corporações do país asiático, além desses segmentos, investiram na logística e nos portos. Uma gigantesca estatal chinesa do ramo logístico, a CCCC, iniciou negociações para aquisição e/ou realização de novos investimentos no Porto de Suape no final de 2018.

É impressionante como todos esses movimentos ocorreram nos últimos anos, permitindo a entrada de diferentes empresas em elos distintos da indústria de petróleo, mas que possuem forte encadeamento entre si. Por isso, a China parece executar uma estratégia articulada de verticalização no mercado petrolífero brasileiro. Isto é, observa-se uma ação conjunta e possivelmente coordenada de diferentes empresas para ingressar em todos os elos da cadeia produtiva do petróleo. Diferentes corporações participam de aquisições e investimentos na área de exploração e produção, refino, distribuição e logística. Embora algumas delas, como a CNPC e a Sinopec, estejam presentes em mais de um segmento, a maior parte das iniciativas tem se caracterizado pela diversificação do ingresso do capital chinês no petróleo brasileiro.

De tal forma, ao invés de uma empresa atuar de maneira verticalizada, o conjunto das companhias chinesas está se inserindo no Brasil sob essa lógica, o que permite pulverizar riscos, socializar os investimentos, bem como flexibilizar e acelerar a execução dos projetos. E esses dois últimos pontos são fundamentais na atual conjuntura: flexibilidade e pujança para realização de novos investimentos.

A guerra comercial exige, por um lado, cadência e cautela na realização de cada resposta geopolítica dada pelos chineses, mas, por outro, exige celeridade e visão estratégica na ocupação de espaços econômicos.

Os desinvestimentos realizados pela Petrobras e a irrelevância brasileira nessa disputa abrem espaços ainda mais importantes para a entrada chinesa na indústria de petróleo brasileira. Isso tem sido feito por meio da ampliação a produção de petróleo e gás conectando-a com a logística e, posteriormente, com os portos (visando sua exportação) e/ou com as refinarias e a distribuição (a fim de realizar a transformação industrial do gás e petróleo cru em derivados para vende-los).

Se, algum momento, a política externa brasileira buscou ser altiva e soberana em relação aos conflitos geopolíticos e econômicos globais, o alinhamento ideológico ao governo Trump e a crescente dependência econômica dos chineses, nos colocam numa posição de fragilidade e de subordinação. Algo que não deve mudar, independente do futuro da guerra comercial sino-americana.

* Rodrigo Leão é mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp. Coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e pesquisador do NEC da Universidade Federal da Bahia. 

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