Velho gagá na roda punk

"A imagem do velho gagá na roda punk – refrão de Solução de Contorno – sintetiza com perfeição o dilema moderno que muitos dos atuais quarentões e cinquentões (e, por que não, sessentões?) vivemos: como envelhecer sem abandonar nossas identidades essencialmente juvenis?"

Há dias esse refrão não sai da minha cabeça, cortesia d’Os Replicantes, que lançaram recentemente o álbum Libertà. Chamou-me a atenção o modo como, vira e mexe, o tema do envelhecimento aparece nas novas músicas do quarteto. A imagem do velho gagá na roda punk – refrão de Solução de Contorno – sintetiza com perfeição o dilema moderno que muitos dos atuais quarentões e cinquentões (e, por que não, sessentões?) vivemos: como envelhecer sem abandonar nossas identidades essencialmente juvenis?

Há algo de ridículo na cena ao imaginarmos um tiozinho trocando cotoveladas e empurrões com outros fãs exaltados (vamos combinar: nem com 20 anos isso tinha muita graça!). Mas, é possível enxergá-lo também com uma dose de admiração por manter-se fiel àquilo que gosta e acredita, independentemente da idade. E para quem não gostar, com certeza o nosso velho gagá ainda pode encher a boca para mandar um f*$%-se por entre a dentadura, no melhor estilo punk!

Mas são os versos da música que abre o disco – Bergamotas – que melhor espelham as limitações e reflexões inerentes ao processo de envelhecimento. Canta Julia Barth: “Não posso mais encher o pote de sobremesa / Não tenho mais saúde para trabalhar de madrugada / Desperdicei meu tempo com o que não tinha importância / A gente nunca amadurece / Chega a hora em que a vida se repete / E não há mais tempo para ver o mundo mudar.”

Reclamações usuais

Assim como o novo álbum d’Os Replicantes não apresenta novidades dentro da sonoridade punk praticada pelo quarteto desde os anos 80, os lamentos contra o envelhecimento da letra acima também são bem conhecidos. Eles aparecem, por exemplo, no livro Saber Envelhecer, de Cícero, filósofo romano do Século I a.C.

Diante dos queixumes sobre a limitação dos prazeres do açúcar (e de outros), Cícero diria que nada é mais detestável que o prazer: o predomínio desse obscurece o espírito e torna impossível a sobrevivência da virtude. Renunciar aos banquetes é, também, renunciar à embriaguez, à insônia e à indigestão; assim, a velhice nos ofereceria a oportunidade de aprender a desfrutar os prazeres de uma refeição equilibrada.

Já a reclamação sobre a perda do vigor físico – que nos permite virar madrugadas impunemente na juventude, mas que cobra um preço alto com o avanço da idade – acaba sendo minimizada por Cícero. “Usemos tal vantagem quando a tivermos e não a lamentemos quando ela desaparecer”, ensina o célebre romano. Para ele, o essencial é usar nossas forças com parcimônia e adaptar os nossos esforços aos meios do qual dispomos; ele aproveita também para pregar a temperança e a prática dos exercícios físicos como remédios para a conservação do poder de resistência de nossos corpos.

Maturidade

A idade, nos diz Cícero, não nos priva de certas qualidades, como a sabedoria, a clarividência e o discernimento: pelo contrário, essas são próprias da maturidade. Ora, a letra de Bergamota está repleta dessa sabedoria desencantada própria de quem já avançou em anos; de quem se tornou capaz de olhar para trás e de reconhecer seus erros e limitações; de quem se rendeu ao ceticismo quanto às possibilidades de mudanças do mundo. Diz Cícero que os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a velhice. Ao ouvir Libertà, fiquei com a impressão de que esses andam dando suas escapadinhas para se esbaldar numa roda punk.

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