O campo santo

"É de se esperar que os familiares admitam o encerramento das buscas e a transformação, de parte da área dos resgates, num campo santo, como se faz em tragédias com grande número de vítimas", escreve Paulo Castelo Branco, sobre Brumadinho

Nessas terras onde canta o sabiá, há algum tempo, sucessivos acontecimentos dramáticos têm abalado o ânimo da população. A trágica gestão do Partido dos Trabalhadores nos afundou em um mar de dejetos no qual chafurdavam autoridades, políticos, doleiros e outros marginais.

O povo, que acreditava no sonho de um mundo melhor, saiu cabisbaixo para não olhar, nem ser olhado pelos geniais criminosos repetidamente conduzidos por policiais para ônibus, e não ao famoso camburão, em direção aos presídios.

A cada dia, um arrependido delator aponta e prova as propinas que compravam tudo; e não para, dizem que ainda faltam investigações aprofundadas sobre roubalheiras em governos e empresas públicas.

No meio de tanta tristeza, os crimes contra mulheres assustam dentro e fora de casa. A violência contra crianças e idosos reflete o descaso com o presente e o futuro. A prática da homofobia se transformou em assunto diário. A discriminação de negros, mulatos, indígenas, quilombolas e pobres, apesar da lei, permanece como se fosse fato impossível de ser controlado.

E por aí vamos: o atentado contra o presidente Jair Bolsonaro, o rompimento da barragem de Mariana e a de Brumadinho, o incêndio que matou jovens jogadores do Flamengo, as enchentes que afogam São Paulo, a ação de milícias compostas por políticos, matadores, policiais corruptos, e meninos que, com armas pesadas nas mãos, assaltam e matam sem dó nem piedade, atemorizando os impotentes cidadãos.

Todas essas situações brotam na mídia de forma escandalosa e contínua.

Agora, dois jovens, copiando ações de jogos virtuais, invadem escola e matam, a tiros e flechadas, estudantes e professores. Para encerrar o drama real, os assassinos se suicidam, deixando no ar a indagação da motivação do ato tresloucado.

Os inquéritos são instaurados em cada caso, e recomeça o sofrimento dos que perdem os seus entes queridos.

No caso do rompimento de Brumadinho, apesar da ação rápida das autoridades para proteger os familiares das vítimas, a busca interminável por corpos tem exaurido as pessoas, os bombeiros e a população da cidade. Os primeiros resultados da investigação determinaram prisões e afastamento de dirigentes da empresa e técnicos prestadores de serviços.

Com ação conjunta de autoridades civis e religiosas, psicólogos e representantes da comunidade, poder-se-ia chegar a uma solução menos dolorosa para as famílias das vítimas. Creio que a continuação das buscas por segmentos corporais aumenta a frustração dessas famílias. Hoje, há nos serviços de identificação centenas de fragmentos aguardando testes de DNA para confirmação de origem.

Nesse sentido, é de se esperar que os familiares, assistidos por profissionais competentes, admitam o encerramento das buscas e a transformação, de parte da área em que permanecem os resgates, num campo santo, como se faz em tragédias com grande número de vítimas. A difícil solução fará com que a cidade pranteie seus mortos, e, os sobreviventes retomem os seus caminhos, seus empregos e a paz que tanto buscam.

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