Era só uma menina kantiana

Ainda que um homem se esforce até sua última gota de ilusão, jamais poderá falar com propriedade sobre feminismo, sobre Dia Internacional da Mulher – dizem que Chico Buarque chegou bem perto disso e, por via das dúvidas, deixem-me ouvir "Mulheres de Atenas" mais uma vez, agora de olhos fechados. Nenhum homem pode ousar afrontar o lugar de fala das mulheres, por razões quase óbvias. Arriscando-me a sofrer os efeitos da maravilhosa ira santa, sem qualquer autoridade venho aqui pelo 12º ano consecutivo não para homenagens, cantilenas ou salamaleques, mas apenas movido pelo sentimento mais puro que existe.

Corro mesmo o risco de falar à toa em um dia tradicionalmente reservado a tantos textos bons (e a outros tantos de péssimo gosto). Arrisco-me mesmo à deselegância, pois se trata aqui de um relato delicado, difícil. "Razão põe de volta os pés no chão", li em algum lugar, e por isso eu não vou me render ao racional neste momento. Onde repousam uma mente quieta, uma espinha ereta e um coração tranquilo que não naquele cantinho especial da alma resguardado pela coragem? Leis são convite à desobediência. Imposições causam aquele tipo de afronta à naturalidade. Normas e padrões ceifam rumos e, por vezes, impedem o devido desenlace. Adiante, pois, que o mundo não é terreno de paz para quem se entrega e o benquisto enredo precisa ser alimentado.

Venho aprendendo com a mais improvável das mulheres lições práticas de um intensivo sem data para acabar, se acabar. Irritadiça, inquieta – pois genial –, impulsiva, infinita, ela parece ser a soma de todas as forças da natureza. Ela um dia me disse que abrir o espaço desta coluna para uma mulher se manifestar livremente não tem nada a ver com lugar de fala, e eu ainda tentei dizer que me referia metaforicamente à situação. Inútil: ela tinha razão, porque uma coisa é canal; outra, voz. Razão, neste caso, foi apenas uma mulher se impondo. Ademais, minha propensão à anarquia absoluta não me permite ir além de certos limites – não é não, ora essa.

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Kant e sua crise existencial, fruto ou não de sua "tese dos 39 anos", poderia interromper este texto neste ponto, e sacar uma ideia lapidar de Crítica da razão pura para refutá-lo. Razão por razão, ele diria, a conexão dos eventos traz em si uma metafísica mais interessante, de forma que vamos parar com essa história de ensinamentos face à vulnerabilidade de um dos interlocutores – a minha, por certo. Umbilicalmente adepto do que não se pode explicar, eu me curvaria à sugestão, às favas minha anarquia atávica. Grato, ficaria feliz em ver a dialética dos relacionamentos reduzida à contemplação. Eu não ando mesmo tão dado a cientificismos, teorias, doutrinas filosóficas. Reservo-me ao direito de apenas bem-querer (que se dane o acordo ortográfico).

Vastidão verde do mundo à minha frente, dia desses me peguei pensando em como é poderosa a presença de cada mulher em qualquer espaço deste planeta estranho – cada uma delas, insisto. Organizando em vão as ideias, vi-me plena e extremamente dependente do que elas têm para me dizer, sob risco de não mais querer estar. Calmamente, venho aceitando o fato de que não tenho forças para lutar contra o que não se vê, o que não se toca. Estranha e serenamente, entrego-me ao bel-prazer de minhas próprias pulsações e, em resiliência extrema, sigo entre aprendizado e suspiro.

Escoro-me novamente no prussiano Immanuel e aceito que "a amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder muito do primeiro sabor", querendo dizer que "quem não sabe o que busca, não identifica o que acha".

Leal a tudo o que vivo, nunca tive tanta vontade de aprender com a certeza do que se quer achar. Inocentemente, vejo bailarinas de camurça em mulheres que apenas se vestem como querem, para trabalhar ou ir à padaria, porque sim. Nuas como se estivessem de tanto bem estar, fortes e plenas. Dia desses eu aprendo algo. Ainda que sequer me aproxime do know-how de um Chico Buarque, ao menos terei deixado cair pelo chão, no transcurso desse aprendizado, as pétalas de encantamento que Clarice certa vez derramou por uma certa rua metafórica e kantiana.

 

P.s.: escutem enquanto leem (é sempre boa receita):

 

P.s. 2: para quem tem paciência e quiser se aventurar nos textos anteriores sobre o 8 de Março:

Adriana Caitano, jornalista, em vídeo e texto: “No Dia da Mulher, não me dê uma rosa” (2018)

A “ressaca real” de Duarte Colombina, a mulher que chorou porque sorriu demais (2017)

A mais pura das mulheres (2016)

Touché, Élora (2015)

Mulher com H (2014)

O azul onírico do plenário em verso e Rosa (2013)

A mulher quando as ruas eram de fogo (2012)

Mulher, a auto-homenagem (2011)

Sobre Iemanjá, Clarice e a “menina do pedido de criança” (as três marias) (2010)

Mais flores em vocês (2009)

Flores em vocês (2008)

 

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