Ainda sobre a “autocrítica” imposta ao PT

"Nós não temos medo das críticas nem de fazer autocrítica, porque a verdade está de nosso lado, e as massas básicas, os trabalhadores e os camponeses, estão de nosso lado." (Mao Ze Dong, principal fundador e ditador da República Popular China, 1957)

 

(Nota do autor: se tudo anda tão bem, por que precisam fazer autocrítica?)

Em março de 2018, publiquei no Congresso em Foco o artigo “PT: Autocrítica ou Castigo?”. O artigo visava apenas mostrar solidariedade ao PT contra o linchamento moral da direita e da “esquerda”, que não deixavam passar um dia sem exigir autocrítica, retratação, arrependimento, e assim em diante.

O artigo passou despercebido durante mais de oito meses, até que o pesquisador Breno Altman publicou um texto semelhante, porém mais preciso e expressivo, na Folha de S.Paulo. Por causa disso, alguns críticos dele me colocaram no mesmo “paredão”, e tornaram-me também o foco de suas diatribes.

  • Este novo texto não é uma resposta a essas críticas. É apenas um esclarecimento sobre algumas ideias erradas sobre a autocrítica, que foram publicadas por nossos antagonistas.

Propostas de Autocríticas de Direita e de Esquerda

Entre os antagonistas, a principal crítica era que tanto Breno como eu (cada um por sua conta) consideramos apenas a cobrança de autocrítica ao PT proposta pela direita. Já as cobrança da esquerda – que, segundo eles, tinham sido formuladas antes que as da direita – eram tratadas da mesma maneira, sem diferenciar ambas. Eu fui cobrado também para admitir que a “esquerda” teve prioridade na corrida pelo quem-pede-mais-autocrítica-ao-PT.

Em meu caso, quero dizer que posso diferenciar propostas de esquerda das propostas da direita em muitos casos, porém não neste.

Eu acompanhei a campanha eleitoral com muita atenção, e acredito que, fora do PT e de alguns micropartidos que quase não receberam cobertura, os únicos representantes da esquerda foram Guilherme Boulos e sua vice. Aliás, Boulos foi o único líder importante de quem nunca ouvi exigir autocrítica do PT.

Minha impressão é que as numerosas exigências de autocrítica provém de pessoas que atuam por razões diversas, das quais nenhuma tem a ver com o objetivo de construir um programa viável de esquerda. As pessoas mais importantes são as que querem aproveitar o 44% dos votos do PT para o 2022. E, mais ostensivamente, as que procuram a dissolução de partido a qualquer custo. As pessoas de médio ou pequeno poder social estão movidas por antigos rancores políticos, desavenças, fraturas partidárias, ou pela procura de reparações a ofensas reais ou fictícias sofridas nas mãos do PT.

 

 

Quanto à chapa do PT, quero salientar que, apesar de apoiar Fernando Haddad em todo momento, fiquei desiludido quanto ele pareceu submeter-se parcialmente às exigências de “autocrítica” de diversos grupos. Embora sua negativa tivesse significado perder a metade de seus votos, mesmo assim acho que teria sido melhor mostrar ao povo que existem candidatos que não se curvam a qualquer chantagem. Esse seria um passo importante para a educação do eleitor, embora seus resultados talvez demorassem várias gerações para serem percebidos. Assim aconteceu em alguns países da Europa onde ainda hoje há um esquerda respeitável e mais que centenária.

Voltando as críticas, penso que para diferenciar entre direita e esquerda é necessário encontrar algum ponto de discrepância entre ambas. Mas, em que se diferencia a exigência contínua, implacável, reiterativa da “esquerda”, da exigência de autocritica cobrada pela direita ??

Ás vezes, a “esquerda” enfeita sua pretensão de humilhação do PT, aduzindo que este partido deve renunciar a sua prédica reformista, não revolucionária, assistencialista, e traidora do proletariado. Sem querer ser derrotista, penso que isto talvez seja um pouco ambicioso para o clima catastrófico que se vive atualmente. Que partido no mundo está, neste momento, em condições de oferecer revolução, socialismo e poder popular? Aliás, no Brasil, quem tem o poder de oferecer um leve horizonte de democracia nesta orgia de corrupção, acomodo, hipocrisia, venalidade e barbárie em que se debatem todos os poderes públicos? Quando alguém cobra de alguém que faça o impossível, é duvidoso que a proposta seja bem intencionada.

Em outros aspectos, percebo que a “esquerda” e a direita coincidem em fazer críticas moralistas, e que ambas ignoram, na mesma medida, as aberrações jurídicas sofridas pelo PT. Os direitos humanos devem aplicar-se a todos, mesmo aos partidos nazistas (caso eles fossem perseguidos, o que certamente não aconteceu nem acontecerá nunca no Brasil). A alegria da “esquerda” frente as violações aos direitos humanos dos “petralhas” impedem diferenciá-la  da direita. Vejamos o que ambas admitem com absoluta naturalidade e coincidência.

Julgamentos e sentenças sem provas nem indícios. Delações arrancadas por pressão. Sadismo e histeria de juízes/as e promotores/as. Repúdio pela lei internacional. Fraudes eleitorais comprovados. Cobertura, proteção e até promoção de corruptos de outros partidos, cujos líderes estão em liberdade e ocupam cargos no governo. Relativização da noção de inocência. Infrações aos tratados assinados através da ONU. Rejeição sistemática de habeas corpus sem fundamentação. Imposição de sentenças em julgamentos cujos autos não foram lidos pelos juízes. Violação de sigilo pessoal. Vazamento de informação altamente sensível adquirida de maneira criminosa. Empecilhos ao cuidado médicos dos prisioneiros. Transformação de candidatos em reféns. E muitos outros, os quais seria entediante citar.

Aliás, o fato de que pessoas ou grupos que já foram de esquerda (e talvez ainda sejam partidários de uma esquerda simbólica) defendam grupos de direita, torna ainda a situação mais confusa. Chamar “progressistas” a coronéis prepotentes e ressentidos, ou a falsos ecologistas cujo “verde” está nas notas de dólar, só contribui a borrar ainda mais a linha divisória. Uma prova incontestável é que mais de metade dos votos destes “esquerdistas” caíram no colo de capitão no segundo turno.

Afinal, onde, por favor, será que posso encontrar as supostas cobranças de “esquerda” contra o PT???

Tradição de Crítica e Autocrítica de Longa Data

Outra crítica feita pelos propagandistas do slogan “use e abuse de autocrítica” é a de que eu e outros petralhas ignoramos a tradição de longa data da esquerda que, segundo isto, teria usado sempre a crítica e a autocrítica. Tudo bem, vou procurar essa tradição.

Os mecanismos de busca na Internet sobre assuntos ligados ao socialismo, anarquismo ou marxismo (neste último caso foram MEW, MIA, MEIA e MEGA) não registram nenhuma palavra semelhante a autocrítica até 1927. Não aparecem aí autocritique, Selbstkritik, самокритика, self-criticism, nem autocrítica em nenhum trabalho publicado entre 1820 e 1926. Comprovar isto pode tomar menos de uma hora. Veja, por exemplo, em MIA:

www.marxists.org/portugues

Foi Stalin quem tornou popular esse novo conceito. A partir dos 16 anos foi aluno de um seminário de teologia de Tiflis onde, a despeito de sua repulsa pela religião, esteve em contato com as práticas de confissão e de penitência, que possivelmente estimularam sua criação do conceito de crítica e autocrítica, que adoptou como metodologia política mais de vinte anos depois. Finalmente, aumentando a confusão, “derivou” esses conceitos da misteriosa e esotérica dialética de Hegel. (Aqui sim é Hegel e não Engels; não me confundam com o procurador do Powerpoint!).

No 15º Congresso do Partido Comunista (12/1927) divulgou essa metodologia, que era utilizada para desestabilizar os dirigentes através das críticas e cobranças dos operários, e também para inculcar o hábito da delação. Tudo a ver com os valores de nossa Escola sem Partido!! Ele escreveu vários artigos analisando os riscos de vulgarizar a autocrítica. O primeiro foi em 26/06/1928:

www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1928/06/26.htm

Stalin manteve seu estilo mesurado nos escritos teóricos, mas todos sabem que a aplicação do método da Kritica e Somacritica era um interrogatório policial, onde o “autocrítico” sofria geralmente constrangimento psicológico. O filme A Confissão, de 1970 (Costa-Gavras), e A Vida dos Outros, de 2007 (von Donnersmarck), são excelentes retratos desse método.

 

 

Nas outras tendências do marxismo da época, por exemplo, o trotskismo, a referência a autocrítica é pouco frequente e sempre num estilo amigável. Tanto na obra de Trotsky, como a de outro grande do marxismo (Antonio Gramsci), a noção de autocrítica aparece poucas vezes e sempre está referida a uma reflexão destinada a que os militantes encontrem espontaneamente erros em seus projetos. Nunca foi usada como uma metodologia para forçar decisões alheias, para punir desobediência partidária, nem, muito menos, como recurso de desmoralização e posterior castigo.

Já os anarquistas foram inimigos capitais da autocrítica, que sempre consideraram um processo burocrático e policial, cuja finalidade era impedir a discussão democrática espontânea.

  • Doravante, então, e até os anos 70, a única autocrítica conhecida nos partidos ditos comunistas esteve sempre baseada no stalinismo. Isso aconteceu nos PC’s das Américas, da Europa e da Ásia, e duraram enquanto a stalinismo foi vigente na ideologia de cada lugar.

Já os asiáticos, em especial os maoístas chineses, e os membros de Khmer Vermelho da Kampuchea desenvolveram uma forma própria de crítica-autocrítica, onde a metodologia stalinista para cobrar arrependimento e punição moral foi levada aos extremos.

Lendo o seguinte texto de Mao talvez ninguém se surpreenda de que seu método da autocrítica tenha levado a China dos anos 60 a seus níveis medievais.

www.marxists.org/reference/archive/mao/works/red-book/ch27.htm

A autocrítica maoísta esteve baseada durante décadas em atos de arrependimento e autohumilhação pesados, que exigiam adaptar a mentalidade do autocrítico aos princípios considerados infalíveis e religiosos do Maoísmo. Quase nunca esse processo produziu um resultado positivo, e seu ritualismo estava planejado para justificar que a vítima fosse presa, torturada ou executada após a “autocrítica”.

A tudo isto, o Khmer acrescentou elementos ainda mais místicos e irracionais, com atos de contrição, humilhação e reprimenda, se bem que poucas vezes atingiu a ferocidade do método maoísta.

  • Talvez pareça pouco gentil perguntar aos nossos amigos “esquerdistas” se é esta a tradição de longa data que tanto elogiam!

Fora destes casos, uma tradição de autocrítica que foi muito usada nos países católicos foi a da Teologia da Libertação. Sua origem foi a prática da contrição, a confissão e a penitência da Igreja Católica, frequentemente usada pelos jovens guerrilheiros, por exemplo na Argentina.

A eficiência desta tradição, porém, é discutível. Sendo a “esquerda” cristã nacionalista, teológica e tradicionalista, as mudanças da ideologia específica de seus quadros era imprevisível. Muitos jovens que se consideravam marxistas e católicos acabaram nas listas de desaparecidos. Então, parece que esta forma de tradição também não é salutar. Um, entre dúzias de outros exemplos, foi o do bispo Tórtolo, que esteve entre os fundadores da teologia da libertação na Argentina. Defensores do nacionalismo, da prioridade do Cristianismo e do supremacismo argentino na região, esses bispos abraçaram o projeto da ditadura, com o resultado conhecido.

  • Dos marxistas contemporâneos, o único que escreveu sobre autocrítica foi o francês Louis Althusser (1918-1990). Veja uma página em português.

www.marxists.org/portugues/althusser/index.htm

Althusser foi um escritor realmente criativo e erudito, de grande inteligência e imaginação, mas seu severíssimo quadro de bipolaridade contaminou muitos de seus escritos. Seu livro Elementos de Autocrítica de 1972 não acrescenta nada importante a esse conceito. Em realidade, o livro é uma coleção de suas próprias autocríticas em relação aos livros que o tornaram célebre, como Por Marx e Ler O Capital.

Não recomendo a autocrítica assumida por Althusser. Homem brilhante de sua geração, teve uma crise gravíssima em 1980 e cometeu uxoricídio. Morreu em 1990, depois de ter passado dez anos sob tutela psiquiátrica, porém em semiliberdade, porque foi considerado inimputável.

 

Do mesmo autor:

O mistério das urnas eletrônicas

Pérez Esquivel contra a Inquisição Tropical

 

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