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A igreja dos gatos

Nada mais nada menos que quatro mil manuscritos chamados “evangelhos” – escritos em aramaico, hebraico e grego. E algumas seitas essencialmente judaicas que impunham suas doutrinas umas às outras e se digladiavam numa disputa encarniçada, entre elas a “Igreja de Jerusalém”. Aquela mesma, fundada por onze apóstolos (o décimo segundo, como todos sabemos, enforcou-se).

Tudo piorou quando Paulo espalhou “a notícia” aos gentios –  a partir daí, ao longo de trezentos e tantos anos, dezenas de outras seitas/igrejas foram criadas e a confusão reinou absoluta. Até que Constantino, no famoso Concílio de Nicéia, transforma o cristianismo em religião oficial do Império Romano.

O cristianismo romano, todavia, carecia de um ordenamento, de um corpo,de leis. Alguns anos depois do concílio, Dâmaso, bispo de Roma, convocou Jerônimo para pôr ordem no galinheiro.  Jerônimo fez uma compilação dos velhos manuscritos, os traduziu e pariu a Vulgata, que é a versão latina da Bíblia. Virou figurão da Igreja Católica não porque os quarenta e seis livros do Antigo Testamento e os vinte e sete livros no Novo Testamento lhe foram soprados pelo Espírito Santo, mas porque fez um bem-bolado, digo, uma compilação que atendia aos interesses de Dâmaso.

Eis que surge a Bíblia da forma como Valdemiro Chapeludo, Edir Macedo e R.R. Soares a conhecem. Feita sob encomenda para Dâmaso que, além de ser o publisher do “livro sagrado” e o primeiro Papa com outorgas imperiais, também foi um homem implacável quando se tratava de defender suas versões e interesses. Que o diga Ursino, que, no ano  366 d.C, se declarou Papa e foi defenestrado por Sua Santidade numa batalha sangrenta que durou dois anos e resultou na morte de milhares de fiéis e infiés.

Outros três mil e tantos evangelhos foram descartados por Jerônimo, e são conhecidos, hoje, como apócrifos. O mais famoso é o Manuscrito do Mar Morto.

O evangelho gnóstico de Nag Hammadi  também é muito conhecido. Nomes como Maria Madalena, Felipe, Tiago e Tomé fazem parte da equipe de cronistas. Além disso, o manuscrito conta com diversas versões do apocalipse. Talvez o ponto alto seja a manifestação de Paulo “psíquico”, outra vez o apóstolo dos gentios, que fala de um Deus inconsciente dentro de cada um e de todos nós ao mesmo tempo, consta que Jung  pirou ao lê-lo. A diferença básica desses apócrifos para a Vulgata é a presença de um Cristo que dispensa intermediários. Nada de igreja.

Contudo, a versão mais perigosa e subversiva dos apócrifos não está registrada exatamente num evangelho, mas no abantesma de uma seita. Aqui, vou falar brevemente dos Cátaros. Uma sociedade secreta famosa na Idade Média, nascida em Languedoc, no sul da França. Eles se autoproclamavam porta-vozes dos mistérios de Jesus e herdeiros dos apóstolos. No auge da Inquisição foram barbaramente perseguidos e varridos do mapa pela Igreja Católica.

Alain de Lille, teólogo francês do século 13, dizia que a origem da ignomínia vinha da palavra catus: “gato” em latim. Segundo de Lille, os seguidores da seita “faziam coisas ignóbeis em seus conciliábulos, como beijar o traseiro de gatos”. Além de “lamber cu de gato”, entre outras heresias, os cátaros rejeitavam o dogma da Santíssima Trindade e sacramentos como o batismo, a eucaristia e o matrimônio. O sexo fora do casamento era visto com naturalidade. Também não davam muita bola para metáforas e parábolas, a ressurreição para eles era algo muito próximo da reencarnação budista, vestiam hábitos negros e curtiam Motorhead (brincadeirinha).

Grosso modo, pode-se dizer que os Cátaros foram o grande pretexto para a instalação da Santa Inquisição, e também pode-se especular que as histórias disseminadas por esses “hereges” são bem diferentes e muito mais divertidas do que as filtradas pela Vulgata encomendada por Dâmaso. A começar por um  demiurgo (ou um Criador) deliberadamente maléfico, vingador e demente cujo maior tesão é sacanear/sacrificar seus filhos. Dentre as atrocidades mais notórias destacam-se o sacrifício/trote aplicado em Abraão (ou Isaac) e o milenar castigo imposto ao nosso querido e paciente Jesus Cristo. Você vai me dizer que, tirando o demiurgo descalibrado, a Bíblia tem tudo isso. Tem, mas o Deus da Bíblia não é um demente que designou seu filho única e exclusivamente para espalhar o terror sobre a face da terra.

Não seria exagero se disséssemos que, ao contrariar o Pai, Jesus Cristo tentou educá-lo. Infelizmente  não conseguiu alcançar seu desiderato e, como castigo por não ter usado seus superpoderes e não ter destruído os homens que o subjugaram, foi mandado para o abate e, assim, se fez  a vontade Dele, que continua doidão, sádico e beligerante – todos os dias milhões de almas ao redor do planeta (eu me incluo) rezam, como fez Jesus crucificado, para que seja feita a vontade Dele.

Eu acrescentaria um “pega leve” ao Pai Nosso, assim na terra como no céu.

Sempre é bom lembrar que, quando esteve entre os homens, JC  se comunicava por parábolas. Só dava a letra e falava a real para os apóstolos por meio dos mistérios – eis o paradoxo e o milagre. Vale lembrar que os Cátaros se diziam descendentes dos apóstolos e guardadores dos mistérios divinos. Daí que é uma inutilidade negar os evangelhos apócrifos aos herdeiros da Igreja dos Gatos. Negá-los é a mesma coisa que negar a especulação. E sem especulação não há ficção. E sem ficção não existem milagres. E sem milagres e uma dose gigantesca de Darwin e boa vontade, não existiríamos. E se não existíssemos Deus não poderia ser refutado, acredite quem quiser.

Um Deus que, segundo os cátaros, é espírito puro e não tem nada a ver com o demiurgo (demônio) responsável pela Criação e pelo buraco onde estamos metidos. Isso mesmo, a Criação seria uma obra maléfica, habitada por todos nós, e que nunca teve nada de divina.

Lendo os evangelhos apócrifos nos aproximamos não somente de um Jesus mais humano que prescinde de intermediários, mas de algo que podia ser uma revelação estendida e universal. Ou seja, um instrumento – embora tão ficcional quanto a Vulgata – potencialmente muito mais libertador. Em que Jesus dá a letra. Em que o Pai, a Mãe e o Espírito Santo ascendem sem custos, nada de boletos e nada de carnês de pagamento, em que a culpa funciona como prêmio e não como castigo. É de arrepiar. Como se o sangue que corre dos evangelhos “oficiais” tivesse a chance de ser renovado pela irrigação de novas artérias, ou seja, sem o filtro de Jerônimo e, sobretudo, sem a intervenção de qualquer igreja.

Tirando o “livro sagrado” que circula por aí, especula-se que cerca de três mil e novecentos evangelhos apócrifos foram escritos. Muitos foram destruídos, muitos foram consumidos pelo tempo, muitos quiçá aparecerão. De qualquer forma não é absurdo imaginar (até por exclusão e porque foram excluídos) que os conteúdos desses evangelhos podem ser bem mais interessantes que a Vulgata e, com certeza, mais comprometedores e heréticos, graças a Deus, e por isso mesmo muito mais “perigosos, divinos e maravilhosos”, como diria um velho cátaro e profeta aposentado de saudosos tempos idos.

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