Bolsonaro teve o voto de 39% dos eleitores. Haddad, de 32%. Nulos, brancos e abstenções somaram 29%

O deputado federal e capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro (PSL-RJ) recebeu neste domingo (28) o aval dos eleitores para tomar posse, em 1º de janeiro, como o 38º presidente do país.

Com 100% da apuração concluída, Bolsonaro somou 57,8 milhões de votos, contra 47 milhões do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT). Em termos de votos válidos, os percentuais de cada um são 55% e 45%.

Levando em conta os votos totais, no entanto, os números indicam que Jair Bolsonaro teve o voto de menos de 40% dos 147,3 milhões de eleitores aptos. Mais de 21% se abstiveram de votar. Votos nulos e brancos somaram, respectivamente, 5,8% e 1,7%.

Veja os números exatos:

Resultado final da eleição

Bolsonaro: 57.797.466 (39,3%)
Haddad: 47.040.859 (31,9%)
Abstenções: 31.373.290 (21,3%)
Nulos: 8.608.088 (5,8%)
Brancos: 2.486.591 (1,7%)

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Apesar disso, Bolsonaro superou amplamente o adversário. Venceu em quatro das cinco regiões do país. Em termos proporcionais, sua maior vantagem foi registrada no Sul e no Centro-Oeste, onde teve 68% e 67% dos votos válidos. Haddad ganhou somente nos nove estados do Nordeste, no Pará e em Tocantins. No Nordeste, única região em que venceu, Haddad ampliou a vitória obtida no primeiro turno e chegou a 70% dos votos válidos, com vantagem de 40 pontos sobre o adversário. Enquanto Bolsonaro superou o petista com folga nas grandes cidades, o ex-ministro da Educação saiu-se melhor nos pequenos municípios. Foi o mais votado em 2.810 cidades, ante 2.760 de Bolsonaro.

Presidente eleito, Bolsonaro leu discurso em que assumiu o compromisso de cumprir a Constituição Federal e diminuir o tamanho do Estado. “O governo dará um passo atrás, reduzindo sua estrutura e a burocracia, cortando desperdícios e privilégios para que as pessoas possam dar muitos passos à frente”, anunciou (veja abaixo a íntegra do discurso em vídeo e texto).

Naquela que foi certamente a mais acirrada e violenta campanha presidencial realizada no Brasil desde a Constituição Federal de 1988, Jair Bolsonaro alcançou a vitória com o apoio de setores bastante heterogêneos da sociedade. Entre eles, o agronegócio, a maior parte das igrejas evangélicas, o mercado financeiro, movimentos contra a corrupção e integrantes das Forças Armadas e das polícias civil, federal e militar.

Juramento a Deus

“Fizemos uma campanha como deveria ser feita”, disse Bolsonaro na noite deste domingo (28), pouco depois de confirmada a sua vitória. Sentado diante de uma mesa com vários livros e ladeado pela terceira esposa, Michele, e por uma tradutora de Libras, ele levantou uma obra do inglês Winston Churchill para afirmar que vai se inspirar no “exemplo dos estadistas”.

Disse que foi buscar na Bíblia os “fundamentos” de sua pregação eleitoral, que têm na “verdade” o seu eixo central. Também criticou o “extremismo da esquerda”. Ainda na mesa, um exemplar da Constituição Federal e uma obra do filósofo Olavo de Carvalho, filósofo de extrema-direita conhecido pela virulência com que investe contra os que pensam diferente dele.

Em seguida, enquanto uma multidão comemorava o resultado da eleição presidencial em frente à sua residência na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), Jair Bolsonaro, a família e vários políticos fizeram uma oração de agradecimento a Deus pela graça alcançada. O senador Magno Malta (PR-ES), derrotado no último dia 7 na tentativa de se reeleger, foi encarregado de fazer a oração.

Bolsonaro. Eleitores Bolsonaro comemoram vitória na Esplanada dos Ministérios, em BrasíliaEleitores de Bolsonaro comemoram vitória na Esplanada dos Ministérios, em Brasília - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Somente depois disso, leu o discurso oficial de celebração da vitória, iniciado por um famoso ensinamento bíblico (“conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”). Agradeceu as orações contra a “ameaça de seguirmos por um caminho que não é o que os brasileiros desejam e merecem”. Prometeu defender a Constituição, a democracia e a liberdade. E acrescentou: Isso é uma promessa não de um partido,  não é a palavra de homem, é um juramento a Deus”.

Para Bolsonaro, “o que ocorreu hoje nas urnas não foi a vitória de um partido, mas a celebração de um país pela liberdade”. Além de prometer diminui o Estado brasileiro, ressaltou o compromisso com o trinômio “emprego, renda e equilíbrio fiscal”: “Quebraremos o ciclo vicioso do crescimento da dívida, substituindo-o pelo ciclo virtuoso de menores déficits, dívida decrescente e juros mais baixos. Isso estimulará os investimentos, o crescimento e a consequente geração de empregos. O déficit público primário precisa ser eliminado o mais rápido possível e convertido em superávit, esse é o nosso propósito”.

Disse ainda que o Brasil reconquistará o “respeito internacional” e se livrará do “viés ideológico” na condução da política externa (veja abaixo a íntegra do discurso).

Rejeição ao PT

Deputado conhecido por seu perfil de extrema-direita, Jair Bolsonaro conquistou a vitória explorando a rejeição contra o partido do seu adversário. Os erros econômicos cometidos pelo PT no poder e, sobretudo, o envolvimento do ex-presidente Lula e de outras figuras importantes do petismo com a corrupção foram intensamente explorados pelo deputado.

Sua competente campanha eleitoral também procurou suavizar atos e afirmações que sempre o levaram a ser tratado como alguém que, enquanto congressista, era ou encarado como uma espécie de piada de mau gosto – que, portanto, não merecia ser levado muito a sério – ou como um perigoso radical de direita. O caminho para o poder foi facilitado por dois episódios: a inelegibilidade do ex-presidente Lula, que liderava todas as pesquisas de intenção de voto mesmo preso desde 7 de abril, por imposição da Operação Lava Jato; e o atentado a faca que ele sofreu em Juiz de Fora (MG), em 6 de setembro, que quase o levou à morte e, por efeito colateral, acabou por vitimizá-lo a despertar a compaixão em parcela do eleitorado.

Com o Congresso ao fundo, eleitores lotam o centro do poder em Brasília e modificam a paisagem da EsplanadaCom o Congresso ao fundo, eleitores lotam o centro do poder em Brasília e modificam a paisagem da Esplanada - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Ingrediente decisivo de sua escalada para o Palácio do Planalto foi o uso das redes sociais para a comunicação direta com a população. Com frequência as redes dos seguidores de Bolsonaro foram acusadas de transmitir informações falsas – as famosas fake news – sobre outros candidatos. Mesmo eleito, Bolsonaro responderá a processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), movido pelo PT, com base em reportagem do jornal Folha de S.Paulo. Segundo a matéria assinada pela repórter especial Patrícia Campos Mello, o deputado foi beneficiado por um esquema de difusão massiva de mensagens via WhatsApp, com conteúdo contrário a Haddad, bancado por empresários. A lei veda as doações de empresas.

Mistificado pelos seguidores, que sintomaticamente adoram chamá-lo de “mito”, Jair Bolsonaro teve trajetória marcada por polêmicas e confusões com seus pares no Parlamento. Foi alvo de diversos processos judiciais por quebra de decoro parlamentar. Também foi réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por incitação ao crime de estupro e injúria.

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Problemas com a Justiça o perseguem desde que foi acusado, ainda na década de 1980, de idealizar um plano para explodir bomba em instalações militares como forma de protestar contra os baixos soldos. Ficou preso por 15 dias, mas o Superior Tribunal Militar (STM) reformou decisão da Comissão de Notificação, que havia deliberado por unanimidade pela sua expulsão do Exército.

Quase todos os principais veículos da mídia internacional – incluindo publicações conservadoras como o francês Le Figaro, a revista inglesa The Economist e os dois principais jornais econômicos do mundo, The Wall Street Journal e Financial Times – manifestaram preocupações com a possibilidade de ascensão de Bolsonaro ao poder. Além das ideias extremistas do capitão, tais veículos temem o seu temperamento explosivo, a sua total inexperiência administrativa e a inabilidade para administrar conflitos.

Assista o pronunciamento da vitória:

Íntegra do discurso da vitória de Bolsonaro:

Conhecereis a verdade e a verdade os libertará. Nunca estive sozinho, sempre senti a presença de Deus e a força do povo brasileiro, orações de homens, mulheres, crianças, famílias inteiras, que diante da ameaça de seguirmos por um caminho que não é o que os brasileiros desejam e merecem, colocaram o Brasil acima de tudo. Faço de vocês minhas testemunhas de que esse governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade. Isso é uma promessa não de um partido não é a palavra de homem, é um juramento a Deus. A verdade vai liberar esse grande país e vai nos transformar em uma grande nação. A verdade foi o farol que nos guiou até aqui e vai seguir iluminando nosso caminho.

O que ocorreu hoje nas urnas não foi a vitória de um partido, mas a celebração de um país pela liberdade. O compromisso que assumimos com os brasileiros foi de fazer um governo decente, comprometido exclusivamente com o país e o nosso povo e eu garanto que assim o será. Nosso governo será formado por pessoas que tenham o mesmo propósito de cada um que me ouve nesse momento, o propósito de transformar o Brasil em uma grande, livre e próspera nação.

Podem ter certeza de que nós trabalharemos dia e noite para isso. Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, andar nas ruas em todos os lugares desse país, liberdade de empreender, liberdade política e religiosa, liberdade de fazer, formar e ter opinião, liberdade de escolhas e ser respeitado por elas. Esse é um país de todos nós, brasileiros natos ou de coração. Um Brasil de diversas opiniões, cores e orientações.

Como defensor da liberdade, vou guiar um governo que defenda, proteja os direitos do cidadão que cumpre seus deveres e respeita as leis. Elas são para todos, assim será o nosso governo constitucional e democrático: acredito na capacidade do povo brasileiro que trabalha de forma honesta, de que podemos juntos, governo e sociedade, construir um futuro melhor. Esse futuro de que falo e acredito passa por um governo que crie condições para que todos cresçam. Isso significa que o governo dará um passo atrás, reduzindo sua estrutura e a burocracia, cortando desperdícios e privilégios para que as pessoas possam dar muitos passos à frente.

Nosso governo vai quebrar paradigmas, vamos confiar nas pessoas, vamos desburocratizar, simplificar, desburocratizar e permitir que o cidadão, o empreendedor, tenha menos dificuldades para criar e construir o seu futuro. Vamos desamarrar o Brasil.

Outro paradigma que vamos quebrar: o governo respeitará de verdade a federação, as pessoas vivem nos municípios, portanto os recursos irão para os estados e municípios. colocaremos de pé a federação brasileira. Nesse sentido, repetimos que precisamos de mais Brasil e menos Brasília. Muito do que estamos fundando no presente trará conquistas no futuro. As sementes serão lançadas e regadas para que a prosperidade seja o desígnio dos brasileiros do presente e do futuro.

Esse não será um governo de resposta apenas às necessidades imediatas, as reformas que nos propomos são para criar um novo futuro para os brasileiros. E quando digo isso falo com uma mão voltada ao seringueiro no coração da selva amazônica e a outra para o empreendedor suando para criar e desenvolver sua empresa. Porque não existem brasileiros do sul e do norte, somos todos um só país, uma só nação, uma nação democrática.

O Estado democrático de direito tem como um dos seus pilares o direito à propriedade. Reafirmamos aqui o respeito e a defesa desse princípio constitucional e fundador das principais nações democráticas do mundo. Emprego, renda e equilíbrio fiscal é o nosso compromisso para ficarmos mais próximos de oportunidades e trabalho para todos.

Quebraremos o ciclo vicioso do crescimento da dívida, substituindo-o pelo ciclo virtuoso de menores déficits, dívida decrescente e juros mais baixos. Isso estimulará os investimentos, o crescimento e a consequente geração de empregos. O déficit público primário precisa ser eliminado o mais rápido possível e convertido em superávit, esse é o nosso propósito.

Aos jovens, palavra do fundo do meu coração: vocês têm vivido um período de incerteza e estagnação econômica, vocês foram e estão sendo testados a provar sua capacidade de resistir. Prometo que isso vai mudar, essa é a nossa missão. Governaremos com os olhos nas futuras gerações e não na próxima eleição.

Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que fomos submetidos nos últimos anos. O Brasil deixará de estar apartado das nações mais desenvolvidas, buscaremos relações bilaterais com países que possam agregar valor econômico e tecnológico aos produtos brasileiros. Recuperaremos o respeito internacional pelo nosso amado Brasil.

Durante a nossa caminhada de quatro anos pelo Brasil, uma frase se repetiu muitas vezes: ‘Bolsonaro, você é a nossa esperança’. Cada abraço, cada aperto de mão, cada palavra ou manifestação de estímulo que recebemos nessa caminhada fortaleceram o nosso propósito de colocar o Brasil no lugar que merece.

Nesse projeto que construímos cabem todos aqueles que têm o mesmo objetivo que o nosso. Mesmo no momento mais difícil dessa caminhada, quando, por obra de Deus e da equipe médica de Juiz de Fora e do Albert Einstein, ganhei uma nossa certidão de nascimento, não perdemos a convicção de que juntos poderíamos chegar à vitória.

É com essa mesma convicção que afirmo: ofereceremos a vocês um governo decente, que trabalhará verdadeiramente por todos os brasileiros. Somos um grande país e agora vamos, juntos, transformar esse país em uma grande nação, uma nação livre, democrática e próspera. Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.

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